sexta-feira, 16 de março de 2012

Coming home


O céu chorava novamente, parece que virou costume ele desaguar sobre nossas cabeças aos finais de tarde. As gotas geladas lavaram a poeira de mais um dia quente. Os rastros se dissolveram no meio da enxurrada.  
Ao chegar em casa minhas pegadas foram apagadas, nem mesmo eu, sabia por onde estive andando.

Eu podia ter entrado rapidamente e ter procurado alguma roupa seca ou um banho quente, mas não. Preferi ficar sentado no jardim tomando aquela chuva que insistia em cair. Olhava para o nada e lembrava de tudo.  A mente ia construindo todos os meus passos caminhados.

Cada pingo d’agua que escorria pelo meu corpo era como uma de minhas células que se soltava de min. Elas iam se encontrando umas com as outras e crescendo, formando veias e artérias. No fim eu já estava perdendo tecidos, órgãos e sistemas.  Eu ia me desfazendo aos poucos. Eu estava deixando de existir, foi à sensação que bateu.

Eu estava sendo apagado de algum HD como se eu fosse um vírus altamente danificam-te. Todas as fontes de informação, conexão ou ligação estava sendo banido com uma nova instalação de um software. Eu resolve entrar e aquecer a pele fria que já não sentia mais.

É tão fria essa casa! Parado na sala eu não sabia pra onde ir. Já havia marcas d’aguas no chão, mas eu não me lembrava de ter entrado. No quarto tudo estava bagunçado, era como se eu já tivesse passado por lá, mas não me lembrava. Foi quando olhei para o computador que me dizia a seguinte frase: “Você tem os olhos em toda parte, e você não tem tempo para se lembrar de como era. É tão frio nessa casa!”.

 Desconheço o significado de lavar a alma, mas uma coisa parece clara, talvez em algum lugar a chuva tenha lavado minha existência.

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